Tudo o que você precisa saber sobre a Glicerina


A Glicerina é o componente mais consumido pelos vapers e está presente em praticamente todos os juices comerciais e caseiros, sendo na maioria dos casos o ingrediente de maior proporção da mistura, normalmente utilizada em percentuais de 50% ou mais, chegando até 100% nos juices chamados de “All VG” ou “Max VG” ou 100% VG.

Para aqueles que já fazem ou querem começar a fazer seus juices, aderindo ao mundo do DIY – Do It Yourself, é imprescindível entender alguns conceitos básicos sobre a Glicerina, pois ela será provavelmente o material que você mais utilizará na fabricação dos líquidos.

Depois de ver alguns absurdos escritos em grupos de Facebook, vi que muitas pessoas não fazem a menor ideia das informações mais básicas acerca da Glicerina, portanto estava na hora de produzir um artigo que deixasse claro tudo o que fosse relevante sobre um componente tão importante e presente em nossa vida de vaper.

O que é a Glicerina?


Quando falamos em “Glicerina” estamos na verdade nos referindo ao componente “Glicerol” que é um composto orgânico presente em todos os óleos e gorduras animais ou vegetais. Ele pertence à função álcool e é considerado seguro para consumo humano desde 1959, sendo presente em muitos produtos de diversas áreas como:

Alimentos e bebidas

  1. Umectante, solvente, amaciante;
  2. Umectante e agente suavizante em doces, bolos e sorvetes, retardando a cristalização do açúcar;
  3. Agente umectante nas embalagens de queijos e carnes;
  4. Solvente e agregador de consistência em flavorizantes e corantes;
  5. Produção de polímeros, como poliglicerol, que são adicionados em margarinas;
  6. Meio facilitador da transferência de calor, por estar em contato direto com o alimento, permitindo que algum alimento específico seja rapidamente resfriado para que não perca algumas características desejáveis.

Na área médica/hospitalar/farmacêutica

  1. Pomadas;
  2. Elixires, xaropes;
  3. Anestésicos;
  4. Seus derivados são utilizados como tranquilizantes e agentes para controle da pressão, como a nitroglicerina, que é um importante vasodilatador;
  5. Em cosméticos ele entra em muitos cremes e loções que mantém a maciez e umidade da pele;
  6. Em cremes dentais, é comum ser utilizado para conferir-lhe brilho, suavidade e viscosidade.

Outras aplicações

  1. Na produção de tabaco. Entre eles:, quando as folhas são quebradas e empacotadas, o glicerol é pulverizado impedindo que as mesmas se tornem secas e quebradiças, o que poderia ocasionar o esfarelamento;
  2. Na indústria têxtil é utilizado para amaciar e flexibilizar as fibras;
  3. O glicerol é utilizado também na indústria de papel na fabricação de alguns papéis especiais, que necessitam de alguns agentes plastificantes para conferir-lhes maleabilidade e tenacidade;
  4. Pode ser utilizado como lubrificante em máquinas que fabricam produtos alimentícios, que entram em contato direto com o alimento ou, quando existir qualquer tipo de incompatibilidade com os produtos utilizados no processo, tais como em rolamentos expostos a solventes como gasolina ou benzina, que poderiam dissolver o óleo mineral;
  5. Utilizado em misturas anticongelantes;
  6. Utilizado para preservar bactérias a temperaturas baixas;

A palavra “Glicerina” define o produto comercial do Glicerol, cuja pureza deve ser de no mínimo 95%.

A história da Glicerina nos juices


Os cigarros eletrônicos modernos foram patenteados pelo farmacêutico chinês Hon Lik em 2003 que além de desenvolver o produto também foi responsável por criar a receita base dos juices, também chamados de “e-liquids”, o que praticamente não mudou até hoje. Desde a sua invenção foram utilizados Propilenoglicol (PG) e Glicerina Vegetal (VG) como agentes de transmissão de sabor e nicotina.

Tanto o PG quanto o VG possuem características que apresentam vantagens e desvantagens, sendo no final utilizada uma combinação dos dois para usar as melhores características de ambos e obter um melhor resultado.

Inicialmente o PG foi escolhido por não ter sabor nem odor, além de pouca viscosidade, característica que ajudava na absorção do líquido pelo pavio do cigarro eletrônico. Porém o componente causa uma potencialização do “throat hit” (o arranhar na garganta causado pela nicotina) e não produz nenhum vapor visível, o que era um problema grave pois a criação da “fumaça” era um fator determinante para seu produto imitar corretamente os cigarros que ele viria a substituir. Além disso, existe um pequeno percentual da população que é alérgica ao PG.

Hon Lik então optou por utilizar também a VG, mais suave no “throat hit” que o PG, naturalmente doce, que não causa alergias e produz grande quantidade de vapor. A combinação desses dois componentes produziu um composto ideal para seu recém patenteado produto.

Inicialmente os equipamentos não tinham um design apropriado para lidar bem com líquidos muito viscosos, não apresentando capacidade suficiente de transferência dos líquidos do reservatório para a sílica (material usado na época, ainda não se usava algodão), o que causava dry hits ou simplesmente não produzia vapor satisfatório. Isso forçava os líquidos a ter um percentual maior de PG e menor de VG.

Com o passar do tempo o design dos tanks foi melhorando, o mecanismo de wicking saiu da sílica para o algodão e todo o sistema aumentou muito sua capacidade de alimentação de líquido para o algodão e a coil, resultando em uma migração de percentual maior de PG para a VG, chegando a comercialização de juices feitos exclusivamente por VG.

Diferentes padrões de pureza do Glicerol


Como vimos, o nome correto do composto é Glicerol, sendo Glicerina a forma comercial com pelo menos 95% de pureza. Esse é o produto encontrado nas farmácias em frascos indicados para “uso externo” e pode ser utilizada na fabricação de juices apenas em último caso, quando a outra opção seja fumar um cigarro, devendo ser substituída pela glicerina indicada o mais rápido possível.

Existem no mundo diversas organizações que criam padrões para componentes químicos, sendo uma das mais famosas a USP – United States Pharmacopeia. Fundada em 1820, a organização criou uma farmacopeia (daí seu nome) que é um compêndio de informações sobre fármacos em geral, definindo pureza, qualidade, dosagem e tantos outros padrões para todo tipo de componente químico utilizado em remédios e outros produtos para saúde. É uma “Bíblia” para compostos químicos.

Quando existe a determinação da sigla USP para algum produto químico significa que aquele componente possui pelo menos 99,5% de pureza ou seja, daquilo que ele diz que é feito. O resto é todo tipo de coisa, desde água até traços de metais, ácidos, graxas, etc. Esse grau de pureza é aceito para todos os tipos de produtos alimentícios e na maioria dos laboratórios e é o padrão indicado para utilização nos juices por ter relativa facilidade de disponibilidade no mercado e qualquer coisa acima disso ser praticamente irrelevante para a saúde.

Porém, com pureza acima do padrão USP temos o padrão P.A. que significa “pró-analise” ou “para análise”, em inglês utiliza-se o termo”reagent grade” e como o nome já diz, é usado como reagente em laboratórios para trabalhos analíticos. É praticamente igual ao A.C.S. e possui 99,98% de pureza. O A.C.S. é o padrão de maior pureza possível no mundo, cuja sigla vem de American Chemical Society (outra organização que criou padrões assim como a USP) e possui algo em torno de 99,99% de pureza. É o único padrão aceito universalmente e não é possível conseguir um nível de pureza maior que este.

No Brasil a Glicerina comercializada normalmente utiliza a nomenclatura “bi-destilada” o que causa certa confusão. Toda glicerina é bi-destilada em seu processo de fabricação e isso não é exatamente um “grau de pureza” pois só a palavra “Glicerina” já representa pureza de 95%, de Glicerol, porém o mercado acabou criando a convenção do uso deste termo como sendo garantia de pureza, mas via de regra, é como dizer “Glicerol 95% puro com processo que garante que ele é 95% puro”.

Glicerina Vegetal e Animal, qual é a indicada?


Agora que já sabemos qual é a pureza indicada, é preciso lembrar que existem duas origem distintas utilizadas na obtenção do glicerol, sendo uma vinda de óleos vegetais e a outra de gorduras animais.

Teoricamente não importa se a coisa é vegetal, animal, mineral, espacial ou interdimensional, se é 99% pura, ela é aquilo e pronto. Torna-se praticamente irrelevante a origem já que a composição molecular no final é a mesma, obviamente vamos acabar consumindo 99% de glicerol certo? Certo? Mais ou menos. Existem dois pontos importantes a considerar.

O primeiro é que para um componente químico poder dizer que é “padrão USP” ele deve ser submetido a testes específicos que buscam por DNA de organismos prejudiciais e contaminantes, além de compostos não desejados como metais pesados, ácidos graxos, entre tantos outros elementos. Isso gera uma potencial brecha quando falamos de glicerol obtido através do processamento de gorduras de animais, pois a BSE (Bovine Spongiform Encephalopathy) ou TSE (Transmissible Spongiform Encephalopathies) que são nomes complicados para se referir à “Doença da Vaca Louca” não é um vírus nem uma bactéria, sendo apenas uma proteína, portanto não existe DNA para ser identificado e consequentemente pode passar pelo “padrão USP”.

Esse foi o único motivo pelo qual foi indicado evitar o uso de glicerina animal na produção de juices quando isso passou a ser mais difundido ao redor do mundo.

Obviamente que a chance de ser contaminado pela “Doença da Vaca Louca” pelo consumo de glicerol é extremamente baixa, mesmo consumindo direta ou indiretamente glicerol de origem animal de tudo quanto é forma em nosso dia a dia, mas eu entendo a preocupação pois devemos levar em conta que nós vapers consumimos muito mais glicerol do que o resto das pessoas que não vaporam, portanto isso pode aumentar o risco. Apesar desta especulação e ela é só isso, uma “especulação” pois não há dados científicos acerca do assunto, até hoje nunca vi nenhum caso documentado de contaminação da doença pelo vapor.

A segunda questão importante que devemos levar em consideração é a filosofia vegana e a religião Judaica. Apesar de terem motivações relativamente diferentes, ambas não aceitam o consumo de glicerina de origem animal e é muito importante ter a garantia ela seja de origem vegetal. No caso da religião Judaica existe inclusive um certificado chamado “Kosher” que muitas indústrias químicas enviam junto com a Glicerina para garantir que não houve contaminação animal no processo de fabricação do produto.

A Glicerina para diabéticos


Um assunto extremamente importante é o impacto da glicerina na saúde de pessoas diabéticas, pois o composto possui o poder adoçante equivalente a 60% da sacarose e uma colher de chá representa 27 kcal, praticamente o mesmo que o açúcar, com 4 calorias por grama. Apesar disso quando consumida ela não eleva os níveis de açúcar no sangue, assim como não alimenta bactérias que causam a cárie. Só não é utilizado em larga escala como adoçante porque adoça menos, obrigando o uso em maior quantidade, o que elevaria o consumo de calorias já que apesar de ter o mesmo poder calórico, é 40% menos adoçante.

No vapor, existe um consenso óbvio que entre fumar e vaporar sempre é indicado substituir o tabagismo pelo vapor, mas essa é a lógica básica dos ecigs que se resume a “redução de danos”.

Pesquisando para este artigo encontramos alguns relatos de picos de níveis de açúcar após vaporar, mas são esparsos e sem qualquer comprovação ou acompanhamento médico, sendo que a maior parte dos testemunhos indicam não haver nenhuma alteração mesmo com acompanhamento dos níveis de glicose antes e após vaporar, feito pelo próprio usuário.

A especialista em diabetes Dra. Sue Marshall (que inclusive é portadora de diabetes tipo 1) autora do livro “Diabetes: The Essencial Guide” (Diabetes: O Guia Essencial em tradução livre) declara que os açúcares presentes nos líquidos consumidos nos cigarros eletrônicos são irrelevantes para alterar o nível de glicose no sangue dos diabéticos e inclusive indica os cigarros eletrônicos para pessoas que tenham a doença de qualquer tipo e não consigam parar de fumar. Confira a entrevista dela ao site “The Blog of E-cigarette Direct”.

Por se tratar de uma doença extremamente personalizada de acordo com a fisiologia da pessoa, o ideal é medir as taxas antes e após vaporar e com isso analisar o comportamento do seu organismo. Acompanhamento médico sempre é o ideal.

Conclusão, resumo, indicações de fornecedores e potenciais problemas


Resumo da ópera: o ideal é utilizar uma glicerina com no mínimo certificado USP que garanta 99,5% de pureza, de origem vegetal e se for diabético, controlar as taxas e fazer um acompanhamento cuidadoso.

É importante também buscar fornecedores confiáveis e cuidar com compras pelo Mercado Livre ou outros canais indiretos. O melhor é comprar diretamente com a fábrica.

Existem 3 marcas que costumam ser as mais indicadas pelos vapers: Embacaps, Asher e Lab Synth.

Embacaps – http://www.embacaps.com.br

Empresa de Porto Alegre no Rio Grande do Sul, vende para pessoa física e entrega no Brasil todo, possui um valor muito atrativo no PG e VG que acaba compensando no frete mesmo para localidades distantes. Trabalham por peso e não por litro e no caso do VG, por causa de sua densidade, 5kg de VG equivalem a aproximadamente 4.8 litros. O atendimento é feito exclusivamente via email. Já utilizei e posso garantir que é excelente.

Asher – http://www.asher.com.br/

Empresa com loja virtual, o que facilita a compra, que inclusive oferece “kits” de PG + VG de 500ml ou de 1 litro cada. Também já utilizei e não tive qualquer problema.

Lab Synth – http://www.labsynth.com.br/

Já li vários relatos que dizem ser a melhor glicerina do mercado, porém a empresa não vende diretamente para pessoas físicas, sendo necessário comprá-la por intermédio de um fornecedor normalmente pelo Mercado Livre. Eu particularmente nunca comprei da Lab Synth então não posso indicar nem vendedor nem a qualidade do produto.

Apesar de ser um produto de relativa facilidade de manufatura industrial, já vi relatos de problemas dos mais diversos que aconteceram com praticamente todas as marcas. Alteração de sabor, cor, cheiro, mudança das características em pouco tempo, entre outros. Não há qualquer confirmação dos motivos, podendo ser desde problemas na fabricação até armazenagem ou transporte. O fato é que ninguém está livre de problemas, independente da marca escolhida, portanto sempre indicamos que sejam feitos testes em pequenas quantidades antes de se comprometer a fazer juices em grandes quantidades.