Nicotina para se divertir


Pela primeira vez na história temos a possibilidade de consumir nicotina sem que seja obrigatório também consumir um cigarro no processo, isso nos permite repensar o papel da substância em nossa sociedade e suas inúmeras interações com a vida das pessoas. Este artigo é inspirado em uma das palestras do 5º Fórum Global Sobre a Nicotina que aconteceu em Junho em Varsóvia, na Polônia e que o Vapor Aqui conferiu de perto e agora traz em uma série de reportagens.

Ele é baseado no painel apresentado pela Dra. Caitlin Notley, professora senior em saúde mental da Faculdade de Medicina e Saúde de Norwich na Inglaterra, que apresenta um estudo independente sobre o papel da nicotina no nosso dia-a-dia.

Você pode fazer o download do arquivo original apresentado pela Dra. em sua paletras clicando neste link.

Por sua vez, a apresentação da Dra. Caitlin é uma compilação de vários estudos que realizou, alguns já publicados tais como:

A singular contribuição dos cigarros eletrônicos para a redução do risco do tabaco no suporte à prevenção de recaídas 

Redefinindo recaídas do fumo como identidade social recuperada – análises qualitativas secundárias de narrativas de recaídas

Uma exploração qualitativa do papel dos ambientes das Vape Shops em auxiliar na abstinência do fumo

Como a nicotina foi e é vista pela sociedade


Na década de 30 os anúncios publicitários diziam coisas como “para manter o corpo sarado, puxe um Lucky Strike ao invés de um docinho” e costumeiramente mostravam esportistas e até médicos indicando esta ou aquela marca, coisa que perdurou até a década de 90 quando se começou a fechar o cerco sobre o fumo.

Em 1998 o governo da Inglaterra começou a encorajar locais públicos livres dos cigarros, em 2003 já havia um pequeno movimento de banimento dos cigarros em bares e restaurantes e em 2007 foi criada uma legislação que criava locais públicos livres do cigarro. Em 2010 a legislação recebia 80% de aceitação da população. A Dra. Caitlin criou uma imagem que define as etapas que a nicotina passou ao longo da história recente de nossa sociedade:

Primeiro temos o uso recreacional, depois a nicotina passa a ser vista como um vício, reconhecida como sendo prejudicial à saúde, para enfim voltar a ser vista com outros olhos e potencialmente aceita novamente como recreacional uma vez que pode ser consumida dissociada do cigarro, através dos cigarros eletrônicos.

O vício é mais do que físico


A Dra. aponta quatro pilares que envolvem o vício: físico, social, psicológico e cultural. Somos uma sociedade complexa e nossa interação com a nicotina é muito mais do que a necessidade de fumar. 

Um caso interessante que comprova a parcela social e cultural do vício é o Japão, país em que as pessoas se importam mais com o próximo do que com si mesmas. Apesar de juices com nicotina serem proibidos, o vaping é legalizado, porém não é visto com bons olhos e você provavelmente vai ganhar alguns olhares hostis se vaporar na rua e até receber pedidos de alguns estabelecimentos para que você guarde seu aparelho. 

Em contrapartida, o tabaco aquecido é um verdadeiro sucesso. O motivo disso? O Japonês prefere ser discreto e não incomodar o próximo, como o cigarro eletrônico é um produto que produz um volume de vapor grande o suficiente para chamar a atenção e até perturbar as pessoas à sua volta, o produto que mais agrada ao Japonês é o tabaco aquecido, muito mais recatado.

Cigarros eletrônicos e a nicotina recreativa


A Dra. Caitlin considera os cigarros eletrônicos uma “tecnologia disruptiva”, termo muito usado no evento por diversos cientistas cuja palavra descreve algo que quando inventado muda profundamente a sociedade. Assim foi com celulares, computadores e muitas outras invenções. Do seu ponto de vista, os aparelhos servem para migrar para uma forma de consumo de nicotina muito menos prejudicial, permitindo assim seu consumo sem comprometer a saúde e retornando a possibilidade recreacional de seu uso.

Essa ideia é fortalecida pela reinserção do papel social do ato de “fumar”, neste caso substituído pelo de “vaporar”, cujos adeptos passam a compor e se sentir inseridos em um grupo específico, com toda uma gama de apelos como aparelhos estilo “gadgets”, possibilidade de “diy” (faça você mesmo) e outras características de hobby. Lojas específicas e ambientes que incentivam o uso como “vape shops” e “vape lounges” acrescentam um papel de “socialização” e encontro de amigos.

Uma vez que os cigarros eletrônicos são comprovadamente muito mais seguros e cujos danos à saúde parecem ser mínimos até então, passam a compor uma gama de produtos que podem ser utilizados por escolha e não necessidade, assim como muitas outras decisões que envolvem prazer e risco como comidas menos saudáveis, porém mais saborosas, atividades perigosas em busca de adrenalina, consumo de café por causa de seus benefícios à mente, entre tantas outras atividades.