Anvisa proíbe cigarros eletrônicos, mas permite remédios que podem te matar


Está com dor de cabeça? Febre? Dores musculares? Dor de estômago?

Você com certeza já teve alguns destes sintomas e também provavelmente sabe exatamente qual remédio tomar para tratar cada um deles não é mesmo? Remédios como paracetamol, dipirona, ibuprofeno, diclofenaco, omeprazol, aspirinas e tantos outros podem ser facilmente encontrados em qualquer farmácia e não precisam sequer de receita. É algo normal, cotidiano. Mas isso é assim somente porque a Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária determinou que estes remédios são seguros para a comercialização e o consumo dos brasileiros. Mas será que são mesmo?

Não é bem por ai. Todos os remédios que citei e muitos outros de uso comum, alguns que você provavelmente tem em casa neste momento, são medicamentos que estão à um passo de serem mais tóxicos e perigosos que os sintomas que eles tratam, com doses recomendadas extremamente próximas do considerado superdosagem ou até medicamentos banidos em mais de 30 países como EUA, Suécia, Japão e Austrália. 

O objetivo deste artigo é provar um ponto, que nossa Agência Nacional de Vigilância Sanitária, responsável por liberar (ou não) soluções de saúde que podem salvar (ou matar) a população brasileira, age com grande hipocrisia e incongruência quando autoriza a livre comercialização destes tipos de medicamentos enquanto permanece proibindo os cigarros eletrônicos.

Veja alguns exemplos do que os remédios mais comuns podem fazer por você:

Tylenol
Princípio ativo: Paracetamol
Para que serve: Dor e febre
Efeitos indesejados: O paracetamol quando metabolizado pelo fígado se transforma em uma substância tóxica chamada de NAPQI, que normalmente é rapidamente eliminada pelo corpo. O problema é que em adultos doses a partir de 4 gramas por dia ou 1 grama de uma única vez podem sobrecarregar o fígado, causando assim lesões irreversíveis e em alguns casos até falência do órgão. O paracetamol tem um índice terapêutico muito ajustado, o que parece ser bom, mas pelo contrário, é péssimo. Isto significa que a dose normal é próxima da dose em que se considera haver sobredosagem, tornando-o perigoso.

Neosaldina, Dorflex
Princípio ativo: Dipirona, mucato de isometepteno, citrato de ofernadrina e cafeína
Para que serve: Dor, dor muscular e febre
Efeitos indesejados: Os efeitos colaterais da dipirona agem diretamente no sangue, ou melhor, na diminuição da quantidade de células do sangue, como glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. Outro alerta diz respeito ao risco de choque anafilático – reação alérgica grave que mesmo quem está acostumado a usar a medicação pode sofrer. Não à toa países como Austrália e Estados Unidos já proibiram o uso da dipirona. A superdosagem da orfenadrina é tóxica e pode levar à morte.

Aspirina
Princípio ativo: Ácido acetilsalicílico
Para que serve: Dor e estágios leves de febre
Efeitos indesejados: Oito comprimidos de Aspirina são suficientes para causar choque cardiovascular e insuficiência respiratória – isso porque doses altas aumentam o risco de excesso de acidez no sangue e baixa acentuada de glicose. Em diabéticos, o uso indiscriminado da Aspirina pode causar hipoglicemia – uma vez que essas pessoas já usam medicamentos para controlar a doença. Combinada com outro anti-inflamatório ou álcool, o uso da Aspirina aumenta as chances de úlcera e sangramentos estomacais e intestinais severos.

Eno 
Princípio ativo: Bicarbonato de sódio, carbonato de sódio e ácido cítrico
Para que serve: Queimação no estômago
Efeitos indesejados: Dois envelopes de Eno contêm 1,7 grama de sódio – quase que a recomendação máxima diária de consumo que é 2 gramas. Ou seja, este simples medicamento pode ser uma bomba principalmente para quem tem pressão alta e problemas no coração. O uso indiscriminado de Eno pode alterar o pH do estômago e, assim, sobrecarregar os rins e os pulmões. Além disso, o excesso de antiácidos, de uma maneira geral, pode reduzir a absorção de nutrientes e diminuir as defesas naturais do suco gástrico, aumentando assim os riscos de contaminação de alimentos.

Omeprazol
Princípio ativo: Omeprazol
Para que serve: Dores no estômago principalmente as provocadas por lesões das mucosas
Efeitos indesejados: O Omeprazol age na diminuição do suco gástrico e seu uso por um longo período pode causar efeito-rebote, gerando assim o excesso de produção de gastrina. Além disso, assim como os antiácidos, o uso frequente e sem acompanhamento médico do Omeprazol pode aumentar o riscoo risco de infecções e dificultar o organismo a absorver nutrientes. Seu uso por muito tempo pode provocar, por exemplo, a diminuição severa dos níveis de magnésio causando em alguns casos problemas cardíacos.  

Apesar de apresentar tantos riscos, estes medicamentos são autorizados pela Anvisa para livre comércio e uso. O que é interessante quando trazemos esta questão para os cigarros eletrônicos. Pela ótica da Anvisa, os cigarros eletrônicos são proibidos desde 2009 e assim permanecem porque não existem estudos que comprovem sua segurança e eficácia, o que é uma falsa verdade, pois não existem estudos no Brasil e para a Agência é isto que basta. Só que ela escolhe ignorar os mais de 800 estudos sérios sobre o tema, incluindo pesquisas realizadas pelo Governo da Inglaterra e outros países de primeiro mundo, que já comprovaram além de qualquer sombra de dúvida, que os cigarros eletrônicos são suficientemente seguros e eficazes para torná-los uma excelente opção de combate ao tabagismo.

Logicamente o método não é livre de riscos e ninguém defende esta ideia, nem quem usa, muito menos quem fabrica. A principal preocupação é que ainda não existem estudos de longo prazo sobre as consequências do uso dos cigarros eletrônicos e isso ocorre porque simplesmente não chegamos neste longo prazo. Os cigarros eletrônicos modernos foram inventados em 2003 e só atingiram o mercado global em 2006, atraindo a atenção de pesquisadores, cientistas e autoridades de saúde após a repercussão que o produto passou a ter, portanto temos que esperar para saber se há algum risco oculto ainda não descoberto, mas até o momento sabe-se com certeza de que ele é 95% menos prejudicial que o cigarro convencional.

Outra grande preocupação é a influência nos jovens e não fumantes, que podem utilizar a premissa de “cigarro seguro” para começar a vaporar, preocupação totalmente válida, porém os estudos garantem que não é bem assim e o interesse dos jovens não aumenta por serem cigarros “eletrônicos” ou por se tratar de algo que promete ser seguro, a maioria simplesmente não demonstra interesse. Mesmo aqueles que demonstram interesse, não passam a fumar os cigarros convencionais, ficando somente no vapor, pois utilizar um cigarro eletrônico é muito mais palatável do que fumar um cigarro convencional, sendo este caminho muito difícil de ser seguido. Mas existem muitos adolescentes não fumantes que começaram a utilizar os cigarros eletrônicos e mesmo que seja um número estatisticamente pequeno, ele é relevante, mas aí temos que encarar uma lógica não muito agradável, mas real, que se os malefícios que um produto pode causar são muito menores que os benefícios que ele pode proporcionar, sua adoção se torna aceitável. É desta forma que pensa a Anvisa acerca de tantos medicamentos atualmente liberados e que oferecem riscos, mas grandes benefícios, por que não usar a mesma lógica com os cigarros eletrônicos?

Só posso especular, dado o retrospecto das decisões da Agência em relação à outras situações igualmente polêmicas, que há uma grande defesa de interesses de terceiros em detrimento da defesa dos interesses da população. Em muitos casos é notável a utilização da Agência como ferramenta de controle das políticas do governo. Cito o caso da Lenalidomida, medicamento contra o câncer adotado em dezenas de países com base em diversos estudos que comprovavam sua eficácia e segurança desde 2004, mas que foi totalmente ignorado pela Anvisa durante mais de uma década, apesar dos apelos da comunidade médica, científica e da população, principalmente os doentes e suas famílias, para ser finalmente liberado apenas no final do ano passado, tirando a chance de tratamento e possível sobrevivência de centenas e talvez milhares de pessoas. Alguns membros influentes da comunidade médica acusaram a Anvisa de não liberar o medicamento por causa do alto custo e consequente impacto que o medicamento acarretaria no SUS – Sistema Único de Saúde.

Mas a decisão de proibir os cigarros eletrônicos (e principalmente manter a decisão ainda hoje, sem muita abertura para o diálogo) parece ser oriunda da grande influência da indústria farmacêutica na questão, que parecem sempre estar intimamente ligados à comunidade médica em geral. São raros os médicos que abertamente falam dos cigarros eletrônicos de forma justa e baseada em fatos, como é o caso do Dr. Drauzio Varella que já declarou publicamente que os cigarros eletrônicos são uma alternativa segura para combater o tabagismo, enquanto outros médicos, aparentemente mais alinhados com os interesses de grandes corporações, vão em rede nacional em programas como Bem Estar da Rede Globo e falam coisas como “há inalação de metais pesados das baterias” ou ainda constatam que a nicotina concentrada quando ingerida pode ser fatal, o que é óbvio e ninguém em sã consciência faria uma coisa como essa, ocultando o fato de que os líquidos consumidos nos cigarros eletrônicos utilizam uma concentração média de apenas 6% de nicotina, além desta ser muito menos absorvida quando comparada à quantidade de nicotina absorvida no tabagismo.

Infelizmente até o momento não temos uma representatividade que possa defender os cigarros eletrônicos como método anti-tabagista, não há uma voz centralizada, cabendo à cada um de nós tentar fazer a sua parte, divulgando informações corretas e com fontes de credibilidade, conscientizando as pessoas do que são os cigarros eletrônicos, como funcionam e apelando para nossos representantes na tentativa de buscar uma liberação que não apenas nos beneficie, mas que abra caminhos para milhões de fumantes no Brasil que ainda não conseguiram largar os cigarros e que podem ter acesso a uma solução que seja efetiva no combate ao vício.

Este artigo foi inspirado no artigo abaixo:

Os riscos alarmantes de 10 remédios que todo mundo consome